A bola da vez j� tem nome

24/Apr/18

Bairro antes conhecido por sua atmosfera interiorana, Jacarepaguá vem mudando, aos poucos, de configuração. Com a alteração do seu Projeto de Estruturação Urbana (PEU), em 2006, passou a receber grande quantidade de empreendimentos imobiliários, sobretudo residenciais. Só nos dois últimos anos, foram lançadas 6.168 unidades do gênero, segundo dados da Associação dos Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário do Rio (Ademi-RJ). Agora, as construtoras correm para preencher uma nova lacuna, aberta pelo adensamento da região: como Jacarepaguá não era dotado de forte estrutura de comércio, tornou-se a bola da vez para empreendimentos comerciais. Do início de 2010 até o fim deste mês, serão 956 novas unidades do tipo - contra nenhum lançamento em 2009 -, o que vem servindo de atrativo para muitas empresas e profissionais liberais estabelecidos em outras áreas da cidade.

- Tinha uma sala no Centro e vi que não estava compensando mantê-la. Trouxe o meu negócio para Jacarepaguá e estou muito satisfeito. Como sou morador do bairro, já visualizava que isso aqui passaria por um boom comercial por não contar com uma grande gama de serviços - diz o técnico em prótese dentária Ângelo Vieira, dono de uma empresa do ramo, instalada desde 2010 no Meta Office Building, na Freguesia.

Dentre os fatores que contribuem para o crescimento comercial do bairro, o protético cita a busca por mais qualidade de vida:

- Quem mora na Freguesia, por exemplo, gosta da proximidade com a natureza. Além disso, hoje em dia muita gente prefere fazer tudo no seu próprio bairro, a pé ou de bicicleta, o que abre essa oportunidade para a chegada de mais serviços.

Assim como Vieira, empresários, comerciantes e empreendedores de outras áreas têm procurado centros comerciais do bairro para instalar seus negócios. A comerciante Fátima Soares dos Santos, dona da loja Hora da Festa, conseguiu comprar uma unidade no condomínio comercial Main Street há sete meses, depois de muito lutar por um espaço em um grande empreendimento localizado no bairro.

- Foi um milagre eu ter conseguido essa loja. A concorrência aqui está enorme, porque Jacarepaguá hoje é um dos bairros mais procurados por comerciantes e empresários na cidade. Estava dando uma passada pela galeria e vi que a loja estava fechada. Procurei o síndico e fiz a proposta. Acho que ela foi aceita prontamente porque oferecemos um serviço que não havia ali. Até então, não tínhamos uma loja de artigos para festas na região - diz ela, que fundou a primeira unidade da Hora da Festa há três anos, em uma loja de rua, na Taquara.

Síndico do Main Street, Valdir Ferreira Gomes tornou-se o principal investidor do local, ao adquirir 16 imóveis do condomínio. Um dos primeiros empreendimentos do tipo no bairro - foi inaugurado em 2000 -, o Main Street sofreu supervalorização após o boom comercial iniciado há pouco menos de dois anos.

- Antes, tínhamos um shopping muito menos movimentado e com menos lojas. Desde que comprei a minha primeira loja aqui, no lançamento, fui adquirindo outras, porque sabia que um dia haveria essa valorização. Hoje, posso dizer que tive um grande lucro; todos os meus imóveis estão alugados e hipevalorizados - diz ele, que prefere não falar em valores.

Dono de uma sala comercial a poucos quilômetros dali, o dentista Élio Coura revela abertamente que sua sala se valorizou em 100% desde que a adquiriu, na planta, em 2004. Ele pensa em vendê-la para lucrar com o investimento e pensa ainda em adquirir outras salas no futuro, com a mesma finalidade.

- Jacarepaguá, hoje, é uma região com enorme potencial para comércio e serviços - observa.

Tendência é continuar crescendo

Segundo estudo desenvolvido pela Associação Comercial e Industrial de Jacarepaguá (Acija), o ápice dos investimentos em empreendimentos comerciais será alcançado um pouco antes de 2016, quando o bairro já terá recebido todas as obras de infraestrutura previstas para serem inauguradas em função dos Jogos Olímpicos.

Na opinião do diretor-executivo da Acija, Aloíso Cunha, a região ainda precisa se adequar à sua nova densidade populacional.

- Estamos muito preocupados com a grande quantidade de veículos que circula atualmente por aqui. Com a inauguração de novos centros comerciais, esse número deve aumentar ainda mais. Precisamos de alternativas viárias para suportar o impacto desse crescimento - diz ele.

Morador do bairro há 36 anos, ele analisa as mudanças das últimas decádas:

- Às vezes, sinto saudade daquela Jacarepaguá de antigamente. Antes, tínhamos um clima interiorano. Vez ou outra, víamos vacas e cobras passando pela rua. Mas, em compensação, hoje temos um bairro altamente desenvolvido. Foi preciso que nos adequássemos aos tempos.

Para o vice-presidente da Ademi-RJ, Cláudio Hermolin, Jacarepaguá estava defasado em relação ao restante da cidade até 2006, quando houve a mudança do PEU.

- Jacarepaguá não estava acompanhando o crescimento dos vizinhos Barra e Recreio. Por estar bem localizado e perto dessas duas áreas, precisava se desenvolver. Antes da alteração da PEU, o bairro contava apenas com imóveis de moradia unifamiliar. Agora, um logradouro que antes abrigava cinco pessoas tem mais de 150 morando, já que os prédios tomaram conta da paisagem - diz.

Hermolim cita ainda um outro fator determinante para o boom comercial da região:

- A Barra e o Recreio são áreas supervalorizadas, enquanto em Jacarepaguá você encontra imóveis mais em conta.

Arquiteto especializado em empreendimentos comerciais, Luis Adolfo Dabkiewicz, da LAP Arquitetura + Construção, analisa as características básicas dos imóveis comerciais inaugurados na região.

- A procura maior tem sido por escritórios e consultórios usados por profissionais liberais, como médicos, dentistas e advogados. A maioria das salas tem 27m x 31m (medida padrão de escritórios pequenos), e o metro quadrado sai por R$5 mil - diz.

A Leduca vai lançar, ainda este mês, cerca de 220 salas comerciais na Freguesia. Para a construtora, o modelo ideal é o de empreendimento comercial com área de lazer, conceito trazido dos condomínios residenciais.

- A ideia é agregar serviços e também áreas de lazer, para dar suporte de conveniência a quem optar pelo nosso produto - afirma Paulo Marques, sócio-diretor da Leduca.

Em 2010, a construtora lançou empreendimento semelhante, o Global Offices Freguesia, com 154 salas e área de lazer dotada de acAdemia, sauna, hidromassagem, auditório e cyber café. Dois dias após o lançamento, todas as unidades estavam vendidas.

A construtora Rubi, por sua vez, aposta no Neo Offices, que terá 187 salas e sete lojas e começará a ser vendido ainda este mês. No ano passado, a construtora lançou dois outros empreendimentos na região. O sucesso foi imediato.

- Em ambos, vendemos todas as salas no dia do lançamento - conta a diretora da Rubi, Ana Carolina Alvim.